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Arminiano sem saber: o que você talvez já crê

Muitos cristãos sustentam convicções arminianas sem nunca ter usado esse nome

Poucas palavras do vocabulário teológico carregam tanta suspeita quanto “arminiano”. Durante séculos, o termo foi associado a heresia, a uma fé centrada no homem ou a uma negação da graça. O resultado é curioso: um grande número de cristãos evangélicos professa, de fato, a fé dos primeiros arminianos, mas evita o nome ou sequer sabe que ele se aplica a si.

Este texto quer ajudar o leitor a reconhecer, com serenidade, onde está a sua convicção. Não se trata de criar rótulos, mas de dar nome ao que muitos já creem sobre o arminianismo, e de desfazer alguns equívocos no caminho.

O que o arminianismo afirma

A graça vem primeiro. O ponto de partida não é a liberdade humana, mas a queda. Desde o pecado de Adão, o ser humano está espiritualmente incapacitado: não busca a Deus, não crê e não faz o bem por iniciativa própria. Se você entende que ninguém chegaria a Cristo sem que Deus tomasse a iniciativa, está em pleno acordo com Armínio. Ao contrário do que muitas vezes se diz, a tradição arminiana afirma a depravação total.

Cristo morreu por todos. Talvez este seja o sinal mais claro. Se você lê “Deus amou o mundo” (João 3:16) e entende que a cruz foi oferecida a toda a humanidade, e não apenas a um grupo previamente escolhido, sua leitura é arminiana. A maior parte da tradição calvinista entende que a expiação visou especificamente os eleitos, embora se discuta se o próprio Calvino pensava assim.

A graça pode ser recusada. Deus atrai, convence e capacita, mas não força. O lamento de Jesus sobre Jerusalém, que não quis ser reunida (Mateus 23:37), e a acusação de Estêvão aos que resistiam ao Espírito Santo (Atos 7:51) mostram uma graça real e eficaz, porém resistível. Se você crê que alguém pode rejeitar o chamado de Deus, compartilha uma convicção central do arminianismo.

A eleição é em Cristo. Arminianos não negam a eleição nem a predestinação, palavras bíblicas que eles afirmam com alegria. O que muda é o modo de entendê-las. Deus elegeu Cristo e, nele, todos os que estiverem unidos a ele pela fé. A predestinação é o propósito divino de levar os que creem à glória, e não uma escolha prévia e incondicional de quem crerá.

A fé une a Cristo, e em Cristo há vida. Na formulação arminiana mais comum, a nova vida espiritual é concedida a quem crê, porque é na união com Cristo pela fé que se recebe a regeneração. O calvinismo costuma inverter essa ordem: primeiro Deus regenera, depois a pessoa crê.

Onde os arminianos divergem entre si

Como toda tradição viva, o arminianismo tem debates internos.

Perseverança. A maioria dos arminianos crê que um cristão verdadeiro pode, por negligência persistente, abandonar a fé. Mas nem sempre foi consenso: em 1610, os Remonstrantes deixaram a questão em aberto, e só em 1618 passaram a afirmar essa possibilidade. Há ainda arminianos que sustentam alguma forma de segurança da salvação. Quem crê assim não deixa, por isso, de ser arminiano.

Expiação. O próprio Armínio entendia a cruz como satisfação da justiça divina em favor do pecador, na linha da substituição penal, e muitos arminianos seguem esse caminho. Outros preferem a chamada teoria governamental, associada a Hugo Grócio: a cruz manifesta a seriedade da justiça de Deus e permite que Ele perdoe sem tornar o pecado algo trivial.

O que o arminianismo não é

Não é pelagianismo. Nenhum arminiano histórico ensina que o homem pode salvar-se ou dar o primeiro passo em direção a Deus por força própria. A fé só é possível porque a graça a torna possível.

Não é teísmo aberto. O arminianismo clássico afirma que Deus conhece o futuro de forma completa e certa. Correntes recentes que negam essa presciência, ainda que valorizem a liberdade humana, afastam-se da tradição arminiana, e muitos teólogos arminianos as rejeitam com firmeza.

Não é negação da soberania. Deus governa toda a criação, e nada acontece fora da sua vontade, seja por ação direta, seja por permissão. O ponto do arminianismo é que um Deus verdadeiramente soberano pode criar seres verdadeiramente livres sem perder o controle da história. Por trás disso está uma preocupação com o caráter de Deus: Ele não é autor do mal, e o ser humano responde de fato pelos seus pecados.

Conclusão

Se você se reconheceu nestas páginas, talvez já seja arminiano há muito tempo, sem saber. Não há nada de que se envergonhar. O arminianismo não é uma novidade nem uma concessão ao humanismo, mas uma leitura séria e reverente das Escrituras, nascida no coração da Reforma, levada adiante por Wesley e abraçada por milhões de cristãos ao longo dos séculos. É a convicção de que Deus ama verdadeiramente o mundo, de que a sua graça vem antes de tudo e de que Ele deseja, sinceramente, que todos venham a Cristo.


Texto inspirado no artigo “Survey: Are You an Arminian and Don’t Even Know It?”, publicado pela Society of Evangelical Arminians: evangelicalarminians.org.

Para aprofundar:

  • OLIVEIRA, Ivan de. FACTS: os cinco pontos do arminianismo. São Paulo: Editora Reflexão, 2016.
  • DANIEL, Silas. Arminianismo: a mecânica da salvação. 5. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
  • OLSON, Roger E. Teologia arminiana: mitos e realidades. Tradução de Wellington Carvalho Mariano. São Paulo: Editora Reflexão, 2013.

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