Imagine existir sem perceber a realidade. Pior ainda: imagine viver aceitando, passivamente, que tudo é exatamente como sempre lhe ensinaram. Não há dor física nisso, apenas um silêncio ensurdecedor de conformidade. Foi nesse limiar entre o “aceitar” e o “perceber” que meu mundo começou a se desmontar.
Para mim, o questionamento não nasceu de uma crise existencial vazia, mas de um texto antigo. Na adolescência, ao ler sobre a doutrina do Pecado Original, algo estalou dentro de mim. Entender que minha natureza era, segundo a teologia cristã, intrinsecamente corrompida não me trouxe desespero; trouxe luz. Foi o primeiro raio de sol num quarto escuro. Aquela leitura me fez perguntar: se eu sou falho, o que mais que me foi dito como “verdade absoluta” pode ser apenas uma ilusão confortável?
Desde então, adotei um lema que guia cada passo da minha jornada: “Veritas Lux Mea“ — A Verdade é a Minha Luz. E, para um cristão como eu, a verdade não é um conceito abstrato ou um jogo de palavras. Ela é um farol. Refere-se às verdades sobre Deus, sobre o propósito da Sua criação e sobre a ordem natural das coisas.
A realidade, em sua forma crua, tende a ser bela, mas também pode ser assustadora. Talvez seja por isso que a mente humana constrói tantos filtros. É mais fácil encontrar conforto em versões próprias do que é “real” do que encarar a complexidade e, por vezes, a dureza do que realmente existe. Vivemos em uma sociedade onde as pessoas forjam tantas versões da realidade e da verdade que se tornou quase impossível distinguir o que é genuíno do que é meramente uma variação corrompida do correto.
É como se a realidade fosse um metal nobre. Em suas mãos originais, ele tem uma forma definida, útil e bela. Mas, com o tempo, o medo e a conveniência, as pessoas pegam esse metal, o derretem e o forjam em novas formas, distorcidas, que servem aos seus interesses imediatos. Criamos nossos próprios teatros de sombras, com novos personagens, mas sempre com a mesma roupagem de ilusão.
Isso me leva a uma conclusão que ecoa o antigo Mito da Caverna de Platão, mas com uma roupagem moderna: existe uma realidade verdadeira sobre tudo — sobre Deus, o universo, a criação e até sobre os temas sociais. O que muda é a forma como enxergamos. A maioria das pessoas, seja por medo de descobrir a verdade ou por pura conveniência, prefere viver na doçura ou na amargura da ilusão. É mais simples moldar a vida em torno do que já foi definido ao longo dos anos como “verdade”, em vez de buscar a fonte original.
Na minha cosmovisão, fundamentada na teologia cristã, o “natural” é aquilo que faz parte dos princípios originais da criação de Deus. É a harmonia entre o homem e a natureza, a moral e a ética alinhadas ao amor universal de Deus por Sua criação. Jesus, o Cristo, é o exemplo perfeito dessa moralidade e ética, o ponto de referência que nos mostra como a realidade deveria ser vivida, antes que o metal fosse derretido e forjado novamente.
Pensar sobre essas coisas foi o que realmente despertou minha consciência. Não sei exatamente quando comecei, mas foi na adolescência, com aquele texto sobre o pecado, que nunca mais parei. Sempre que vejo o noticiário, as ideologias que surgem, o “multiverso da realidade” onde tantos ramos do pensamento nascem a partir de uma realidade original distorcida, eu me pego refletindo.
O perigo real de não enxergar a realidade verdadeira é viver baseado em uma mentira, como em um mundo programado. Muitos caem nessa ilusão e, sem perceber, tornam-se sombras do teatro, parte do espetáculo. Mas, para aqueles que buscam a luz, o caminho é claro: questionar os filtros, desconstruir as forjas humanas e voltar àquilo que é natural, verdadeiro e eterno.
Porque, no fim, a única realidade que vale a pena habitar é aquela que resiste ao teste da verdade.

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