Apagando as Luzes
Dados, conveniência e o preço silencioso da modernidade.
A Idade das Trevas, ou mais corretamente chamada de Alta Idade Média, foi um período conturbado e instável em todas as formas, estendendo-se aproximadamente do século V ao X, após a queda do Império Romano do Ocidente em 476 d.C. As guerras, as invasões bárbaras, o surgimento do islã e a concentração do saber nas mãos da Igreja definiram aqueles séculos, marcados por bloqueios ao conhecimento e por uma humanidade vivendo às escuras, dependente do que lhe era permitido enxergar.
Curiosamente, vivemos em um mundo que parece muito distante daquele cenário. O presente se movimenta mais rápido do que conseguimos acompanhar: ideologias, governos, políticas e, principalmente, tecnologias surgem e se tornam obsoletas num piscar de olhos. O tempo corre depressa demais e raramente sobra espaço para apreciar, questionar ou mesmo compreender o que está acontecendo ao redor.
É nesse mundo de inovações constantes, que à primeira vista parece uma Idade das Luzes, que um grande perigo se oculta da maioria. Embora esteja sempre visível para quem observa o curso das coisas com mais atenção: a tecnologia sendo colocada a serviço de governos gananciosos e de grandes corporações igualmente sedentas pelo controle de dados. Some-se a isso o crescimento acelerado das inteligências artificiais e temos um cenário pronto para o próximo capítulo sombrio da humanidade: a Idade das Trevas Tecnológicas.
A tecnologia perdeu, cada vez mais, o propósito de servir à humanidade. Tornou-se uma corrida incessante para ver quem acumula mais controle, mais acesso, mais dados. Dados são o novo ouro do mundo, a moeda de troca entre corporações e governos. E a maioria das pessoas comuns, aquelas que não sabem e não se preocupam com os bastidores, não tem sequer consciência de como é usada nesse jogo.
Um exemplo claro está no uso das inteligências artificiais. Quanto mais esse ramo cresce, mais parece que as pessoas se emburrecem e empobrecem em criatividade. Mas vale a pena ir além dessa constatação e fazer uma pergunta mais profunda: o que é, afinal, pensar?
Pensar não é apenas chegar a uma resposta. É o caminho percorrido até ela. É o erro cometido no meio do processo, a dúvida que obriga a revisão, a descoberta inesperada que surge quando a mente trabalha sem atalhos. É nesse percurso, muitas vezes lento e desconfortável, que o ser humano constrói não apenas conhecimento, mas identidade. Quando terceirizamos esse processo para uma máquina, não estamos apenas economizando tempo. Estamos abrindo mão de uma parte de nós mesmos.
A IA, como ferramenta, não tem culpa disso. Ela faz o que foi projetada para fazer: entregar resultados rápidos, coerentes e funcionais. O problema está na postura de quem a usa. Há uma diferença fundamental entre usar a inteligência artificial como um andaime, algo que sustenta e amplia o próprio raciocínio, e usá-la como uma muleta, algo que substitui o esforço de pensar. A primeira postura produz pessoas mais capazes. A segunda, pessoas cada vez mais dependentes e ocas.
É possível observar isso em vários campos. Estudantes que pedem à IA para escrever seus trabalhos não aprendem a argumentar. Profissionais que delegam toda análise a algoritmos perdem a capacidade de questionar os resultados que recebem. Criadores que substituem o processo criativo pela geração automática de conteúdo produzem mais, mas expressam menos. Quantidade sem profundidade não é progresso, é ruído.
Há algo quase paradoxal nisso tudo: a inteligência artificial foi desenvolvida para ampliar as capacidades humanas, e em muitos contextos faz exatamente isso. Mas quando usada sem consciência, produz o efeito inverso. Em vez de potencializar o pensamento, atrofia-o. E uma sociedade que pensa cada vez menos por conta própria é uma sociedade cada vez mais fácil de controlar.
Mas talvez o mecanismo mais sofisticado de controle não seja a força bruta dos governos autoritários nem a vigilância declarada das grandes corporações. É algo muito mais sutil e, por isso, muito mais eficiente: a conveniência.
Ninguém nos obrigou a entregar nossa localização em tempo real, nosso histórico de compras, nossas conversas privadas e nossos padrões de sono a empresas que mal conhecemos. Fizemos isso voluntariamente, em troca de um mapa que nos guia sem precisar pensar, de uma recomendação que antecipa o que queremos antes de sabermos que queremos, de um feed que entrega exatamente o que nos agrada sem esforço algum da nossa parte. A troca pareceu justa. E é exatamente aí que mora o perigo.
A conveniência é sedutora porque resolve problemas reais. Ninguém tem tempo infinito, ninguém quer perder horas em tarefas que uma tecnologia pode resolver em segundos. Isso é legítimo. O problema começa quando a conveniência deixa de ser uma opção e se torna uma dependência, e quando essa dependência é deliberadamente cultivada por quem lucra com ela.
As big techs entenderam isso antes de qualquer um. O modelo de negócio de boa parte das maiores plataformas do mundo não é vender um produto. É vender atenção. É manter o usuário conectado o máximo de tempo possível, porque tempo de tela significa dados, e dados significam dinheiro. Para isso, as plataformas são projetadas com o mesmo rigor científico de um cassino: notificações calculadas, rolagem infinita, recompensas intermitentes. Tudo pensado para que sair seja difícil e ficar seja automático.
O usuário, nesse sistema, raramente percebe o que está acontecendo. Ele experimenta apenas a parte visível: a facilidade, a rapidez, a sensação de estar sempre conectado e informado. O que não vê é o perfil sendo construído a cada clique, a cada pausa num vídeo, a cada pesquisa feita às três da manhã. Não vê os dados sendo vendidos, cruzados, usados para prever comportamentos e, em casos mais extremos, para influenciar decisões políticas e econômicas.
Isso não significa que toda tecnologia conveniente é uma armadilha. Significa que conveniência sem consciência é uma forma de abdicação. Abdicamos do controle sobre nossa atenção, sobre nossa privacidade e, em última instância, sobre nossa autonomia, em troca de um mundo que funciona com menos atrito. E um mundo sem atrito é, muitas vezes, um mundo sem resistência.
A privacidade tem sido negligenciada e as pessoas se tornam apenas mais uma moeda armazenada nos grandes bancos de dados. Governos e grandes empresas podem traçar um perfil completo de qualquer indivíduo simplesmente através do seu uso cotidiano das tecnologias. O problema mais grave é que o mundo exige que estejamos cada vez mais conectados e dependentes delas. Seja para se expressar, obter informações ou lidar com questões sensíveis como saúde, educação, responsabilidade social e finanças, tudo depende da tecnologia e da internet. E todos nós dependemos disso nesse mundo acelerado que não para de inovar.
Essa é a questão central: quem controla os fatores de dependência controla, inevitavelmente, as pessoas e a sociedade. Todos ficamos reféns do sistema.
É praticamente impossível, no mundo pós-industrialização, que alguém não faça uso da tecnologia de alguma forma. Mas o controle do usuário diminui na mesma medida em que a tecnologia avança e se concentra. Por isso a Idade das Trevas Tecnológicas. Não enxergamos de fato o todo; recebemos apenas uma pequena luz daqueles que detêm o controle, suficiente para vermos somente o que querem que vejamos.
Este texto pode parecer conspiracionista à primeira leitura, mas pense por si mesmo: governos controlam os dados dos cidadãos e somos reduzidos a números. Big techs armazenam nosso perfil, nossos hábitos, nossas preferências e vendem essas informações entre si. Pense nas implicações concretas disso. Governos podem ditar o que você acessa na internet, como acontece na Coreia do Norte, na China e na Rússia. Empresas podem limitar o uso de aplicações concorrentes, como ocorre em inúmeros casos, e como ficou evidente nas notícias recentes sobre o Google pretendendo fechar o sistema Android para impedir instalações de lojas de aplicativos de terceiros. O ponto é esse: tornamo-nos cada vez mais dependentes de tecnologias que não controlamos, que não podemos controlar, e das quais precisamos para viver em sociedade.
Ainda assim, existe uma luz no fim do túnel dessa Idade das Trevas que se aproxima: o mundo das tecnologias open-source, onde cada usuário pode ter controle sobre o que usa, como usa e quando usa. É o caso da comunidade Linux, das criptomoedas descentralizadas como o Bitcoin e o Ethereum, e de uma série crescente de iniciativas que colocam o poder de volta nas mãos de quem realmente deveria tê-lo.
À medida que o mundo acelera, vemos que grande parte da humanidade se acomodou a não pensar por conta própria. Isso precisa mudar. Questionar, prezar pela privacidade dos próprios dados e apoiar quem realmente quer ajudar são atitudes que fazem diferença, mesmo que pareçam pequenas diante da magnitude do problema.
Nossa dependência da tecnologia é inevitável. Não podemos mudar isso e nem seria sensato tentar voltar à Idade das Pedras. Mas podemos, e devemos, moldar a forma como usamos as tecnologias e como somos controlados por elas. A tecnologia deve nos servir para o progresso pessoal e para o desenvolvimento social como um todo, não para projetos de controle e dominação.
O amanhã está sendo desenvolvido hoje em algum laboratório de tecnologia ou de inteligência artificial, longe dos olhos de quem mais será afetado por ele. Sempre foi assim: as trevas nunca anunciam a sua chegada, elas simplesmente vão apagando as luzes, uma a uma, até que ninguém mais se lembre de como era quando enxergava. Mas tijolos também podem ser removidos, e cada dado protegido, cada pensamento assumido como seu, cada conveniência questionada é um ato de resistência contra essa escuridão que avança em silêncio. A Idade das Trevas não durou para sempre. E essa também não durará, desde que haja quem se recuse a se acostumar com o escuro.
M. A. Klippel Veritas Lux Mea. Think Bits